Nasci há 50 anos, vivi períodos em que a pobreza era sistematizada, havia uma distinção muito clara das classes sociais: os mais ricos que viviam no centro da cidade e das atenções, e os mais humildes que ficavam às margens, sendo estes a grande maioria. Não existiam pessoas pobres, mas sistemas de pobreza que mantinham essas pessoas cativas num ordenamento sempre injusto, nascido, criado e oriundo de uma cultura insensível, herdeira de um sistema escravagista, de exclusão, de abuso e ameaças econômicas. Portanto, reafirmo: não há pessoas pobres, há cativeiros que as mantêm na pobreza. E infelizmente, essa realidade e essa cultura nos contaminam até os dias de hoje.
Não é a lei da meritocracia que resolve isso: essa lei existiria se as condições fossem similares, iguais e justas. Mas não é assim. E portanto, mesmo que haja méritos individuais reais, o sistema meritocrático torna-se ele mesmo um outro cativeiro social e econômico, usado para culpar e condenar os que ficam à margem e lá devem permanecer para servir e sustentar os que vivem ávidos de ter, como se a vida dependesse do excesso.
Há aqui um pensamento que me acompanha: há escravos que não têm, e há escravos dos que muito possuem. Na verdade, ninguém possui nada. Todos somos gerenciadores dos recursos existentes, responsáveis pela sua finalidade e aplicação.
Quando falo em pobreza aqui, não falo de pessoas, mas de um sistema que mantém as condições materiais necessárias bastante restritas a certas camadas da sociedade. Essa restrição de acesso a bens materiais, sobretudo os mais básicos como alimentação, vestuário, materiais de escola, saneamento, água e energia elétrica, não decorria da falta de esforço das pessoas que compunham essas camadas. Pelo contrário: eram pessoas que trabalhavam muito e pesado nas atividades que poucos gostariam de enfrentar, devido aos riscos, à insalubridade, ao excessivo esforço físico, à exposição ao calor, ao frio, às chuvas e aos sempre presentes perigos de acidentes graves e até mutilações.
O trabalho quase sempre informal não lhes dava absolutamente nenhuma garantia. A ameaça da eterna escassez era o que movimentava o sistema injusto da sociedade, e falo aqui, tristemente, de nossa realidade local.
Antigamente, havia pessoas de minha família, muitos amigos e colegas de escola que não tinham acesso a água, luz ou tratamento de esgoto. Não tinham roupas adequadas; calçados fechados eram poucos que usavam. Havia doenças comuns entre as crianças, marcas de feridas contagiosas ou adquiridas por falta de estrutura social, mas que eram vistas apenas como o destino natural dos pobres, como se fossem culpados por existir naquelas condições.
Hoje, os sistemas de escassez continuam a existir e a operar. Mostram-se determinantes contra os avanços sociais, contra a estrutura pública, mesmo que ainda insuficiente, mas que sugere ao menos uma visão de apoio às populações mantidas nesse cativeiro, enraizado em nossa cultura e que se arrasta ainda como uma vergonha aos nossos olhos e sentidos.
Temos hoje uma estrutura de estado, não digo política, mas técnica, que atua na reestruturação do país: visa dar acesso aos serviços mais básicos como saneamento, água, luz e melhoria da estrutura escolar; ampliou o acesso ao ensino superior a classes e grupos que antigamente simplesmente não podiam ocupar aquelas vagas, criando um caminho ainda tímido, mas não desconsiderável, de mobilidade social, de desconstrução da estrutura de exclusão, de justiça social.
Há aqui, porém, um outro problema. Pessoas que se acostumaram a viver com o mínimo básico muitas vezes olham com desconfiança para a reformulação da estrutura econômica e social. Parte delas volta-se contra a criação de sistemas de correção ao acesso a serviços públicos, principalmente de saúde e educação, e contra outros benefícios mínimos necessários para a subsistência humana. É o cativeiro interiorizado, que se defende de si mesmo.
Aproveito para evocar aqui a Doutrina Social da Igreja: o direito à propriedade é legítimo, porém não é absoluto, pois além dos interesses privados, destina-se ao seu papel social. Podemos dizer que todo ser humano é, em seu conjunto, herdeiro natural de todos os bens do mundo. Isso não é algo objetivamente tácito, pois exige a capacidade de gerir os bens naturais de forma que sirvam ao próprio meio ambiente, para o qual o Criador fez do homem seu cooperador no cuidado, preservação, renovação e sustentabilidade da criação.
Por isso, aos que recebem a responsabilidade do direito de cuidar de um bem, o que chamam de propriedade, é dado que promovam ao mesmo tempo o seu sustento justo, mas que estejam conscientes de que esse bem gerido deve corresponder a benefícios proporcionais à sociedade. O mundo foi feito para o homem, e este não pode ser, por qualquer motivo, destituído de seu direito de coexistência e subsistência. Os detentores dos bens têm por efeito explorar e cuidar do que possuem e propiciar o proporcional retorno ao bem comum. Isso nem seria caridade, mas justiça.
A cultura protestante que colonizou países europeus e os Estados Unidos adotou métodos mais materialistas, onde o direito à propriedade privada passa a ser absoluto e o status social é confundido com as bênçãos de Deus, enquanto a escassez é lida como punição ou predestinação divina. Esse discurso não coaduna com a Doutrina Social Católica, que inverte totalmente essa lógica: a dignidade intrínseca ao ser humano está acima de qualquer interesse material, de qualquer acúmulo de riquezas, de qualquer cultura exploratória. O abuso dos bens materiais e naturais, a exploração do homem pelo poder de mercado, sequer fazem sentido pela ótica social católica, pelo simples motivo de que não correspondem à finalidade da vida humana neste mundo, nem à sua beleza, nem à sua bondade.
Católicos devem ser naturalmente mediadores da justiça no mundo. Não devem reter para si todo o bem que possuem, mas procurar transformar o mundo, tornando-o um lugar no qual toda a segurança, proteção e providência tenha seu fundamento em Deus e sua expressão no próximo.
Por isso, ao exercer o direito de participar da vida pública e política, é legítimo perguntar com reta consciência: este projeto respeita a dignidade intrínseca do ser humano? Valoriza o trabalho ou o precariza? Defende o destino universal dos bens ou absolutiza a propriedade privada em detrimento dos que nada têm? Protege os vulneráveis ou os usa como moeda de barganha? Estas perguntas não são de partido. São de fé.
Eu, João, o menor dos cavaleiros de Santa Maria.






